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E n t r e v i s t a  

ASTA-ROSE ALCAIDE

Presidente da AOB

Asta Rose

 

 

Entrevista: Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.  

                                Fonte: http://www.sc.df.gov.br

A história de Asta-Rose Alcaide se confunde bastante com a história do Teatro Nacional. É por isso que ela está realizando pesquisas e organizando uma publicação que será o primeiro livro contando a história do Teatro Nacional. Asta-Rose Alcaide nasceu em Joinville, Santa Catarina. Asta estudou no Colégio Olinda, de São Paulo, e fez Ballet e Dança Moderna com Chinita Ullman e Vaslav Veltchek, em São Paulo. Casou-se com o tenor português Tomas Alcaide, considerado o maior tenor na história da música em Portugal e com quem visitou Brasília pela primeira vez na década de 60.


Em Lisboa, foi cenógrafae colaboradora em várias montagens de óperas.Para Brasília, mudou-se definitivamente na década de 70. Aqui, entre outras atividades, fundou a Associação Ópera-Brasília, foi assessora da OSTNCS, da Casa Thomas Jefferson, diretora artística do Teatro Nacional e colaboradora de estações de rádio na Europa e jornais de Brasília. Asta também faz direção, cenografia e produção em ópera desde a década de 60.


Como a senhora veio para Brasília? O que achou da cidade logo que passou a conhecê-la?


Iniciei a minha vida em Brasília em dezembro de 1975. Mas, a cidade não me era completamente desconhecida. Em 1962 vim conhecer a capital brasileira como turista, e vim acompanhada de Tomás Alcaide, com quem era casada.. Ficamos no Hotel Nacional. Fizemos o tour em uma hora e achei muito interessante ver com os meus olhos o que já tinha visto em filmes e fotografias. Uma visão futurista, ainda mais para quem vinha de Lisboa. Achei a cidade um pouco triste e vazia e fiquei muito aliviada ao entrar no avião de volta para o Rio de Janeiro.


Quando fez sua primeira visita ao Teatro Nacional? Que impressões guarda daquele momento?


Fiz uma tentativa de ir conhecer o teatro na primeira visita. Em 1962, existia a penas a estrutura em cimento do Teatro. Tentei visitá-lo, mas não encontrei ninguém para me dar informações ou deixar entrar. Foi uma experiência muito frustrante.


E quando a senhora veio definitivamente para Brasília?
Em Lisboa, fui durante 15 anos assistente cultural da Embaixada Americana. Devido ao clima desagradável que se instalou durante os primeiros anos após a Revolução dos Cravos, senti o desejo de voltar ao Brasil. Naquela altura foi-me oferecido o lugar de assistente cultural na Embaixada Americana em Brasília, e depois de hesitar durante seis meses, resolvi finalmente aceitar. Estou há 25 anos em Brasília e nunca me arrependi um só momento de ter vindo. Apaixonei-me pela cidade a ponto de hoje me considerar brasiliense.


Que motivos levaram-na a escrever uma história ido Teatro Nacional? Como é mesmo o seu projeto?
É um projeto no qual penso há muito tempo, exatamente por ver a total falta de memória e de arquivos. Há uma oportunidade fabulosa de se fazer coisas novas num Teatro Nacional, erguido numa capital nova, longe de tudo. Acredito que a cultura é um poderoso aliado da melhoria da qualidade de vida de uma urbe e por isso mesmo merece toda a atenção e o apoio da comunidade. Um teatro é o templo onde se concentram essas forças projetadas pelas manifestações culturais, onde a comunidade vem receber os benefícios da criatividade nas várias áreas da arte, da beleza espiritual, da força redentora e da visão de um mundo melhor que só a verdadeira cultura nos sabe proporcionar. É por isso que acho importante registrar a história do Teatro Nacional, baseado em pesquisas e entrevistas que já venho fazendo há bastante tempo e que, espero, vão transformar-se num testemunho para quem se interessa por cultivar a memória desta cidade tão diferente, tão única e tão apaixonante.


Quais os grandes momentos que você viveu nesse teatro?
Fui desde muito jovem habituada a freqüentar teatros. Quando aqui cheguei, a Sala Martins Pena estava funcionando, embora um pouco precariamente. Ainda cheguei a freqüentar concertos e recitais, espetáculos de teatro e de ballet, mas em setembro de 1976 a sala foi fechada para se concluir todo o edifício. Finalmente, em 21 de abril 1981, assisti à inauguração definitiva do Teatro Nacional com um concerto da recém formada Orquestra Sinfônica de Brasília sob regência do maestro Claudio Santoro. Alguns meses mais tarde apresentou-se o primeiro espetáculo lírico no palco da Sala Villa-Lobos, a cantata cênica Carmina Burana, de Carl Orff. Fui convidada, como presidente da Associação Ópera-Brasília, para colaborar com a então Fundação Cultural na montagem, sobretudo criando os cenários e alguns dos figurinos. Foi um êxito tão grande que lotou a sala durante cinco noites, e teve de ser repetida no ano seguinte. Creio que estes dois momentos inesquecíveis foram os mais emocionante que passei nestes 20 anos de colaboração com o Teatro Nacional de Brasília. Mas eu poderia citar ainda o concerto da orquestra de Israel regida pelo Zubin Mehta, o Balé Bolshoi com Spartacus, a festa que boi o espetáculo do Boi de Parintins, produzido pelo Fernando Bicudo, as sopranos Cecilia Gaspoli e Aprille Mille e , recentemente, a montagem de Um Baile de Máscaras, que superou todas as montagens do Teatro Nacional e revelou um tenor fantástico, o Boiko Zvetanov.


E sobre o público hoje é seu usuário, o que tem a dizer?
O público de hoje já é muito diferente do público de há 20 anos. Nos primeiros 15 anos, a informalidade da vida em Brasília, a facilidade com que se freqüentava o Teatro Nacional - a maior parte das vezes de graça - a falta de convívio com um ambiente de teatro tradicional fazia com que o público chegasse tarde, entrasse em qualquer momento, fazendo barulho, falando alto, conversando, trazendo crianças pequenas com os inevitáveis choros e corridas, etc. Nos concertos tudo era aplaudido, sem conhecimento de que no fim dos movimentos não cabem aplausos, apenas no final. Mas, de um modo geral, o público já sabe apreciar um concerto clássico , um recital ou uma ópera em silêncio, os retardatários são em número bem menor e nota-se um hábito de comportamento mais semelhante ao dos grandes teatros fora de Brasília. Acredito que na mesma proporção aumentou a exigência artística quanto à qualidade dos espetáculos, o que prova que o público evoluiu no bom sentido.


A seu ver, qual a grande demanda do teatro para os próximos anos? O que precisa ser feito para torná-lo ainda mais arrojado?

Acho imprescindível, nos próximos anos, uma reforma total do Teatro Nacional, tanto no aspecto físico e no conforto das suas platéias, na recuperação de várias áreas danificadas pelo tempo e uso, na informatização dos serviços de bilheteria, de informação, na renovação dos quadros de pessoal, na instalação de um restaurante e uma lanchonete, no sistema de segurança, e por fim, na projeção de uma programação planejada com mais antecedência. Mas tudo isso é bem mais fácil na teoria do que na prática. A Secretaria de Estado de Cultura vem empreendendo os maiores esforços para conseguir realizar estas metas ideais, e é justo que se diga que já conseguiu uma considerável melhoria no atendimento do público, no funcionamento do Teatro, na programação muito intensa de meados de janeiro até o Natal que cobre todas as áreas de preferência do vasto público que diariamente enche as salas do Teatro Nacional.